Creoula 2006 Santander/Ílhavo – «Esta vida de marinheiro…»
O Navio de Treino no Mar Creoula, outrora «habitação» de muitos pescadores ilhavenses, voltou a acolher cerca de duas centenas de novos «marinheiros», unindo a cidade de Ílhavo a Santander, cidade espanhola onde está localizado o homólogo do Museu Marítimo de Ílhavo e a sede espanhola da Teka.
De 24 de Agosto a 9 de Setembro quatro viagens reformularam a vida a bordo do antigo lugre bacalhoeiro. O PONTO embarcou na viagem Santander/Ílhavo, que se desenrolou entre 31 de Agosto e 7 de Setembro. Ao longo destes dias, integrámos no segundo grupo e ajudámos a assegurar todas as tarefas diárias para trazer o Creoula a bom porto. No fim, resta uma grande saudade dos dias em alto mar e de todas as amizades que se fizeram a bordo…
Dia 0 | 31 de Agosto 2006 – Adeus Ílhavo: até para a semana…
«Lá vai o balão ao ar/em cima leva uma mota/lá vai o ‘ti Chico Leitão, mais a Silvina Carlota! OLÉ!» – uma canção certamente inventada por alguns, mas que, mesmo sendo desconhecida para a grande maioria, acabaria por ser o «hino» dos cinquenta ilhavenses que viajaram de Santander para Ílhavo.A viagem iniciou-se logo na quinta-feira às 23 horas, depois dos muitos beijinhos e abraços aos familiares e amigos. «Portem-se bem» diziam os pais e irmãos mais velhos, «Vai correr tudo bem, não te preocupes», respondiam os aventureiros que iam partir para o alto mar, à semelhança dos milhares de ilhavenses que, décadas atrás, faziam da vida do mar a sua profissão.Sempre muito animada, a viagem foi acompanhada por muitos sorrisos, cânticos e algumas palavras de apresentações. É que a grande maioria das pessoas reside na Gafanha da Nazaré ou então já participou nesta «aventura» e já se conheciam de experiências anteriores.
1º dia | 1 de Setembro 2006 – Santander: o primeiro contacto
Com algumas paragens pelo caminho – na fronteira de Vilar Formoso e em duas localidades espanholas -, após uma noite sem sono, foi por volta das 10h15 (hora espanhola) que avistávamos as primeiras indicações de que já estávamos
em Santander. O sorriso estampou-se na face de todos os ilhavenses quando avistaram algo conhecido: o Creoula. Estava atracado no Porto da cidade e parecia estar à nossa espera. Depois de deixarmos a bagagem a bordo do antigo lugre de quatro mastros que nos levaria de volta para a nossa terra, a tarde foi ocupada pelo programa protocolar promovido pela autarquia ilhavense. Tanto o nosso grupo como aquele que tinha partido de Ílhavo para Santander foram recebidos pelo Alcaide Gonzalo Garcia-Lago, do Ayuntamiento [Câmara Municipal] de Santander. Na Sala de Recepção, que serve ainda como local de realização dos casamentos civis, foram explicados alguns aspectos caracterizantes da cidade, como por exemplo a bandeira local ou da história local. Recebido pelo próprio Alcaide, também o Presidente da Câmara Municipal de Ílhavo agradeceu a hospitalidade, explicando que uma das razões da visita a Santander prende-se com a pretensão de «aprofundar as relações económicas, culturais e políticas». A visita terminou com a troca de recordações entre os dois representantes.A visita prosseguiria para a sede espanhola da empresa «Teka». Aí, fomos recebidos pelo director técnico local, Ramon Suárez, que explicou o crescimento da empresa e a importância que tem vindo a conquistar nos últimos anos. Presente esteve também Stephan Ludtke, director técnico da Teka Portugal, com sede na Zona Industrial da Mota (Gafanha da Encarnação). Já o final do dia ficou marcado pela visita do «Parque de la Naturaleza de Cabárceno», uma oferta do alcaide. Durante mais de uma hora, seguimos num autocarro, onde uma guia nos explicava um pouco mais da história local e da origem deste parque com cerca de 750 hectares e que constitui a residência de centenas de animais, alguns dos quais em vias de extinção.Ao chegar ao Creoula, todos os instruendos foram distribuídos por grupos de trabalho que, durante a viagem, iriam trabalhar quatro horas por dia, nos designados «quartos».
Terminado o jantar, todos nós quisemos aproveitar para conhecer mais a noite da cidade que, curiosamente, inaugurava uma Feira Medieval no jardim junto ao Porto.
2º dia | 2 de Setembro 2006 – Aproveita-se para conhecer um pouco mais
«Alvorada!». Logo pelas 7 horas começava um novo dia a bordo do Creoula, apesar da viagem só começar no dia seguinte. Hora e meia depois, os cinquenta instruendos tiveram que se reunir, por grupos, a meio-navio. Foi aí que se distribuíram as tarefas que, diariamente, têm que se efectuadas: limpeza dos amarelos, das camaratas, refeitório, casas de banho e lavagem do convés. Ao nosso grupo coube a limpeza do convés. Limpezas feitas, o sol convidou a um passeio por Santander. Muitos optaram pela «visita» às praias. Um outro grupo de pessoas decidiu aculturar-se e conhecer as referências culturais locais, indicadas pelo posto de turismo. Igreja de Sagrado Corazón de Jesús de 1890, Biblioteca Municipal e Galeria de arte, jardins, e diversas igrejas foram alguns dos pontos visitados durante toda a manhã. Depois do almoço, a bordo do Creoula, um grupo maior decidiu ir visitar o Museu Marítimo da Cantábria, uma unidade museológica muito semelhante ao homólogo e nosso conhecido Museu Marítimo de Ílhavo. Com um pequeno oceanário, pudemos ainda admirar as diversas espécies existentes no mar e a sua forma de reprodução. Também a construção dos primeiros barcos aos navios de guerra e a mais moderna tecnologia foram apreciadas durante a visita.
E, porque era a última noite em Santander, os últimos momentos foram aproveitados para conviver mais com os cantábricos numa praça de restauração.
3º dia | 3 de Setembro 2006 – Oceano Atlântico: aqui vamos nós
O sol brilhava lá fora quando a alvorada foi anunciada. Depois das limpezas efectuadas e de um pequeno briefing no refeitório, onde nos foram apresentados os responsáveis por cada uma das secções do navio e dados alguns conselhos relativamente à vida a bordo, foi-nos distribuído a nossa identificação de instruendo. O nosso número, local de encontro em caso de emergência e o mastro pelo qual estávamos responsáveis eram algumas das indicações que nela constavam. Recomendações dadas, era hora de nos despedirmos de vez da cidade de Santander e fazermo-nos ao mar.Ainda de manhã e antes de se sentirem as primeiras tonturas e enjoos, foi explicado os procedimentos de abandono do navio a cada um dos grupos, que se encontravam junto à sua respectiva lancha.E porque todos os momentos têm que ser aproveitados para viver a experiência, os quartos começaram pelas 12 horas. O grupo dois ficou encarregue pelo «rancheiro» (refeitório) das 18 às 20 horas, que iria incluir o lanche e o jantar. Até lá, o tempo foi aproveitado para nos conhecermos um pouco mais, no convés. À medida que o tempo ia passando, cada vez mais, os sintomas de indisposição iam surgindo, o que desmotivou alguns dos instruendos, que preferiam deitar-se nas suas camaratas.
Depois do jantar no refeitório, a noite foi contemplada lá fora, sob o brilho das estrelas e da lua crescente.
4º dia | 4 de Setembro 2006 – Panos içados pela primeira vez com a ajuda de todos Mais habituados ao ondular do Creoula nas águas calmas do mar, os sorrisos começaram a imperar. Para o dia de hoje, o grupo dois tinha a seu cargo dois quartos: das 8 às 12 horas e das 24 às 4 horas da madrugada. Estava estipulado rodar por quatro áreas: leme, vigia, casa das máquinas e Limitações de Avarias (LA). Para além de sentir na pele a sensação de estar nos comandos do navio, todos nós tivemos ainda a oportunidade de verificar como se processa a vigia (na proa) para que não surjam quaisquer imprevistos. Pelo «coração» do navio (leia-se casa das máquinas) o barulho ensurdecedor do motor de 500 cavalos e gerador tem de ser também suportado para que tudo corra dentro do melhor.E eis que, ainda de manhã, foi anunciada a primeira Faina Geral de Mastros. Tal como nos havia sido explicado no dia anterior, os instruendos dirigiram-se para os mastros a que estavam destinados para que fossem içadas as velas e extênsulas dos quatro mastros. Uma acção que necessita de coordenação e da união de todos. Como que para elogiar o nosso trabalho, fomos surpreendidos com a visita de alguns golfinhos que por ali «passeavam».Depois do almoço, e porque a direcção do vento mudou, houve nova Faina geral de mastros, para mudar as retrancas de um bordo para o outro, para que o vento ficasse para ré, tal como nos foi explicado. De novo, a cooperação e união dos instruendos foi posta a prova. Seguia-se-lhe a «meia hora verde», ou seja, as máquinas foram paradas e os geradores desligados por 30 minutos. Um momento especial e único, durante o qual os cinquenta ilhavenses sentiram e ouviram com atenção o som da proa a rasgar o mar, traduzindo-se numa sensação de liberdade. Passado este tempo, os geradores foram ligados, mas o motor continuou «calado» e seguimos ao sabor do vento.Durante a tarde fomos ainda presenteados com uma aula de nós de marinharia. Durante mais de uma hora e meia, a tripulação ensinou-nos a fazer alguns dos nós mais utilizados no dia a dia, explicando a sua função. Depois do jantar, e antes que entrássemos outra vez de quarto, as velas foram arreadas, uma vez que o vento estava cada vez mais forte.
5º dia | 5 de Setembro 2006 – O sol dá lugar ao nevoeiro
O dia amanheceu com nevoeiro cerrado. O sol dos últimos dois dias de viagem despediu-se dando lugar a um tempo mais frio. A visibilidade era quase nula no horizonte e o tempo mais fresco era pouco convidativo para passarmos momentos de convívio no convés.Ainda assim, depois de passar pela cozinha (durante o período a que estava destinada), e porque os acidentes acontecem sempre, o médico a bordo deu alguns conselhos de primeiros socorros. O que fazer em caso de emergência, a primeira abordagem em caso de vítima consciente e inconsciente e procedimentos que devem ser tidos em conta foram explicados minuciosamente pelo responsável pela área de saúde do Navio de Treino de Mar Creoula. Terminado o curso, eram horas de mais uma Faina Geral de Mastros para mudança das retrancas.
6º dia | 6 de Setembro 2006 – Aula de Educação Física para descontrair
O quarto do segundo grupo começou logo pela madrugada, das 4 às 8 horas. Muitos foram aqueles que preferiram não deitar-se, aproveitando o tempo para jogar jogos com cartas ou dominó, no refeitório, enquanto que outros iam «passando pelas brasas», deitados nos bancos de madeira. Foi durante esses momentos que se viveram momentos de algum sobressalto. O Creoula inicia uma série de apitos de presença. O nevoeiro estava cada vez mais cerrado, o que impossibilitava a visualização de duas embarcações que o radar indicava a poucas milhas de distância. Ao que nos foi explicado, duas embarcações piscatórias espanholas não possuíam radar e só se aperceberam da presença do Creoula quando foram projectados feixes de luz. Já o resto do dia seria mais calmo. Os enjoos iam passando e, quando o sol «tímido» resolvia aparecer, os instruendos aproveitavam os momentos para se distraírem, quanto mais não fosse com pequenas bisnagas de água. E porque o dia estava dedicado ao desporto (jogava nesse final de tarde a Selecção Portuguesa), a tarde foi bem passada com uma aula de Educação Física.
Era o último dia, mas o trabalho não parava. As velas foram arreadas pela última vez já durante a noite, enquanto estava como Adjunta do Oficial de Quarto à Ponte. Os quarenta minutos iniciais que demorávamos a içar ou arrear os panos foram diminuindo, chegando aos vinte minutos na última acção conjunta. Uma sensação de aprendizagem e conhecimento que todos os instruendos levaram consigo, na sua bagagem pessoal. Na noite de despedida, o convívio foi o principal prato, servido pela guarnição. No convés, foi distribuída uma fatia de bolo feita pelos cozinheiros, acompanhado de vinho do Porto. Uma oferta que, segundo o comandante serviu para «agradecer o espírito animado trazido pelos 50 instruendos de Ílhavo, uma terra que o Creoula já tão bem conhece». A festa continuou no refeitório, com o visionamento de um documentário da pesca do bacalhau à linha, seguida da festa de aniversário de um dos elementos da guarnição: Frederico Jorge, da cozinha.
7º dia | 7 de Setembro 2006 – O adeus aproxima-se cada vez mais
A alvorada hoje foi mais cedo: às 6h30. As últimas limpezas a bordo foram efectuadas, para que tudo estivesse a brilhar quando atracássemos em casa. O nevoeiro teimava em não desaparecer, o que fazia crer que o desembarque, previsto para as 10 horas, no Cais dos Bacalhoeiros, na Gafanha da Nazaré, fosse adiado por tempo indeterminado. Estavam para entrar primeiro cinco navios antes que o Creoula pudesse avistar o Farol da Barra e pudesse acenar às dezenas de pessoas que se deslocaram à Barra para darás boas-vindas aos novos cinquenta marinheiros. O momento foi um misto de tristeza e alegria quando se avistou a lancha dos pilotos da Barra, trazendo a bordo consigo Ribau Esteves.Já em fila a bombordo do Creoula, nem a Giba (cadela) disfarçava o seu sentimento da já alguma saudade da vida a bordo que se sentia. Por outro lado, muitos não conseguiam esconder a sua satisfação de reencontrar a sua família e pisar a sua terra, que acabou por acontecer depois de arrumadas as bagagens e após todos terem recebido o seu respectivo diploma de instruendo.A despedida final não se deu a bordo do navio, depois das mais de 420 milhas percorridas em cerca de 96 horas de navegação, mas sim, já à noite, num jantar convívio, onde se juntaram praticamente todos os instruendos e elementos da tripulação. A despedida deu-se como no início… ao som do «hino» que alguém inventou e que ficará para sempre no ouvido destes cinquenta «experientes» marítimos… «Lá vai o balão ao ar/em cima leva uma mota/lá vai o ‘ti Chico Leitão, mais a Silvina Carlota! OLÉ!».

VOU COLOCAR ESTE DIÁRIO DE BORDO NO ATLÂNTICO AZUL!
Eu tambem ía na lancha dos Pilotos da Barra com o meu Pai (mestre da Lancha dos pilotos),e o Eng.Ribau Esteves